Psicologia do exercício & esporte - Uma introdução
Esta HP pretende oferecer uma visão ampla da psicologia aplicada ao exercício e ao esporte, para psicólogos, treinadores, preparadores físicos, professores de educação física, pesquisadores, médicos esportivos, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, dirigentes e cronistas esportivos, bem como para aquela pessoa que decide quase tudo dentro de uma competição, o atleta.Objetiva que este espaço seja um manual de consulta a todo o profissional que deseja formar-se ou informar-se nesta nova disciplina das ciências do movimento humano.
Uma análise do desporto mundial, mostra que a evolução da preparação física, técnica, tática e da tecnologia aplicada ao mesmo, cresceu de uma maneira vertiginosa nestes últimos anos. Quase tudo é oportunizado ao atleta para que no momento da competição ele possa apresentar o seu desempenho máximo. Mesmo assim muitos atletas tem falhado na hora da verdade, pois o fator psicológico, tão importante como os demais fatores associados ao rendimento humano, tem sido descuidado ou não levado em consideração.
Na área do exercício, nunca o corpo humano esteve submetido a tamanha pressão por treinamentos e diversas técnicas corporais buscando a modificação de suas formas de acordo com as fantasias individuais ou com o tipo apontado pela moda atual. Algumas sessões de exercício, por exemplo, com aparelhos sofisticados, chegam lembrar as sessões de tortura de outras épocas da evolução (?) da humanidade.
Antes de seguirmos pelos caminhos da psicologia aplicada ao exercício e ao esporte, vamos apresentar ao leitor essa nova disciplina das ciências do movimento humano.
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Competição esportiva para crianças
A cada temporada que se inicia, um número enorme de crianças aparece para aprender algum esporte e, talvez, chegar a ser um atleta de alto nível. Elas são submetidas à uma autêntica peneira, que vai eliminando a grande maioria para conseguir-se um grupo de qualidade. Isso só não acontece em escolinhas esportivas particulares, cujo interesse é o de manter um número máximo de crianças (e a taxa que o pai da criança paga) a qualquer preço.
A preocupação dos que trabalham nas escolinhas, tem sido a de aperfeiçoar cada vez mais, a metodologia de avaliação das crianças, sem levar em conta o sentimento que cada uma elas vivencia no processo. Cratty (1983) diz que " raramente o impacto da luta competitiva nos jovens participantes é neutro, seja em seus corpos ou personalidades. Na verdade, o esporte competitivo compara o desempenho da criança frente a outras ou contra marcas (padrões). Essa comparação pode ser entre grupos de crianças. A criança, faz comparações para ganhar mais informações a respeito de seu nível de capacidade. Neste sentido a criança tem muito mais informações sobre a influência dos seus chutes no futebol e arremessos no basquetebol, contra adversários, do que arremessando uma pelota em distância, sozinha. Por isso, a criança prefere competir com outras do mesmo nível de aptidão, para testar o seu valor. Muitas vezes isso não ocorre, o que pode implicar em traumas mais severos para os que levam desvantagens, em geral os mais jovens e menores (Gelfand & Hartmann, 1978). Escolas com alunos muito pobres, com estatura inferior e habilidade menor várias vezes são massacradas pelo escore e pela humilhação, frente a escolas particulares (com melhores instalações, material e professores) de alunos mais abastados, com maior estatura e habilidade.
É verdade que crianças mais hábeis podem oferecer um modelo para as menos hábeis e melhorar o seu desempenho mas, no momento de competir individual ou coletivamente, deve-se tentar emparelhar as forças. Vencer um adversário demasiadamente fraco não aumenta a auto-estima do vencedor, o perdedor fica humilhado e sua auto-estima é reduzida. Observa-se, assim, a necessidade de colocar atletas e equipes mais parelhas para as competições infantis. Se isso não ocorrer, haverá uma situação de estresse, que pode prejudicar a criança na estruturação de sua personalidade.
O estresse competitivo
O estresse é o resultado quando a criança percebe o desequilíbrio entre o seu nível de aptidão e as exigências do meio ambiente (Thomas et al., 1978). Estas exigências tem origem, geralmente, no treinador e na família. A comunicação inadequada por parte do treinador e de membros da família, será objeto de análise mais adiante. Estas exigências levam a um incremento no nível de ansiedade das crianças, com repercussões sobre as funções do ego como afeto (auto-estima), orientação, senso- percepção e área motora (execução das ações). Um programa de educação física baseado em fortes co mpetições esportivas, pode resultar em estresse que irá prejudicar as crianças (Lintunen, 1985). Várias vezes isso tem ocorrido porque a competição é muito mais importante para o professor de Ed ucação Física do que para as crianças (Thomas et al., 1978; Becker Jr., 1992). Se examinarmos obj etivamente o esporte, poderemos verificar que a competição em si mesmo não é boa nem má, o que realmente importa são as circunstâncias do ambiente onde a criança compete.
Há uma crítica muito forte, quanto as conseqüências das competições esportivas sobre a persona lidade da criança. Algumas pesquisas, no entanto, mostram que, em geral, as competições esportiva s determinam níveis médios de estresse. Não podemos entretanto negar que outras atividades não es portivas, dentro da sala de aula, podem criar mais estresse (Thomas et al., 1978).
Alguns autores utilizaram questionários para a avaliação de perturbação emocional determinad a pela competição (Skubic, 1965), abordando mudanças nos padrões de alimentação, sono e humor. O inusitado é de que ele encontrou mais relatos de instabilidade emocional, na Pequena Liga de Base ball, entre os vitoriosos. Por outro lado, Scanlan & Passer (1978; 1979) avaliando os níveis de a nsiedade de estado antes e após as competições, verificaram que os dos vitoriosos eram menores do que os dos derrotados.
Para verificar objetivamente, o estresse imposto à criança pelo esporte, Hansen (1967) utilizan do a telemetria, mediu a freqüência cardíaca dos meninos que jogavam na Pequena Liga de Baseball. Verificou que, antes de rebater a bola que lhe ia ser jogada, cada menino apresentava cerca de 16 6 de batimentos cardíacos, em média, ou seja, 56 a mais que a média dos outros colegas que mostra vam cerca de 110 bpm. Estes registros, entretanto, não significam que há prejuízo para as criança s submetidas a pressão deste tipo.